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Astrônomos encontram uma “estrela de buraco negro” que parece uma estrela, mas libera energia inimaginável

Carlo VasseniPor Carlo Vasseniagosto 19, 2026Nenhum comentário7 Min de leitura
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O objeto descoberto pelo James Webb pode ajudar a explicar os misteriosos “pequenos pontos vermelhos” do Universo primordial.

Há objetos no Universo que parecem desafiar a própria lógica. Um dos exemplos mais impressionantes acaba de ganhar força com uma descoberta feita pelo telescópio espacial James Webb: um ponto vermelho extremamente distante que se comporta como se fosse uma estrela, mas produz uma quantidade de energia incompatível com qualquer estrela conhecida. Os pesquisadores acreditam que a explicação pode estar em um tipo de objeto chamado “estrela de buraco negro”, uma estrutura em que um buraco negro em crescimento fica envolvido por uma enorme quantidade de gás extremamente denso.

O objeto recebeu o nome de MoM-BH-1* e existia quando o Universo tinha apenas cerca de 660 milhões de anos. Ele chamou atenção porque sua aparência é semelhante à de uma estrela gigantesca, mas sua emissão de energia aponta para um mecanismo completamente diferente. A descoberta, publicada na revista Nature em 12 de agosto de 2026, pode ajudar a resolver outro mistério recente da astronomia: a origem dos chamados “little red dots”, ou pequenos pontos vermelhos, que aparecem repetidamente nas imagens profundas do James Webb.

Por que esse objeto parece uma estrela, mas não se comporta como uma?

A primeira coisa estranha sobre MoM-BH*-1 é justamente sua aparência. O James Webb registrou o objeto como um pequeno ponto vermelho extremamente brilhante, algo que, à primeira vista, poderia ser interpretado como uma estrela ou uma galáxia muito distante. O problema surge quando os astrônomos analisam a quantidade de energia envolvida: segundo o MIT, o objeto libera cerca de 100 bilhões de vezes mais energia do que uma estrela poderia produzir por fusão nuclear, colocando-o em uma categoria completamente diferente.

Uma estrela tradicional funciona, de maneira simplificada, como uma gigantesca esfera de gás cuja energia vem das reações de fusão em seu interior. Um buraco negro, por outro lado, pode liberar enormes quantidades de energia quando matéria se acumula e cai em sua direção. No caso de MoM-BH*-1, os pesquisadores propõem que exista um buraco negro central com aproximadamente 100 mil vezes a massa do Sol, cercado por uma camada extremamente densa de gás que se estenderia por uma região comparável ao tamanho do Sistema Solar.

É justamente essa combinação que torna o objeto tão curioso. O buraco negro seria o verdadeiro motor energético, enquanto o gás ao redor funcionaria como uma espécie de “casca” que faz o conjunto parecer uma estrela para quem observa de muito longe. Em vez de enxergarmos diretamente o ambiente extremo próximo ao buraco negro, vemos a radiação sendo processada e reemitida pelo gás, criando uma aparência estelar. Por isso, o termo “estrela de buraco negro” não significa que exista uma estrela comum com um buraco negro escondido dentro dela, mas descreve uma configuração cósmica muito diferente daquela encontrada nas estrelas atuais.

O que são os misteriosos “pequenos pontos vermelhos” do James Webb?

A descoberta fica ainda mais interessante porque MoM-BH*-1 pode estar relacionado a uma das maiores surpresas produzidas pelo James Webb. Desde o início de suas observações do Universo distante, o telescópio encontrou numerosos objetos compactos e avermelhados que receberam o apelido de “little red dots”. Eles são pequenos nas imagens, mas extremamente luminosos, e sua verdadeira natureza vem sendo debatida pelos astrônomos.

O problema é que esses objetos aparecem em uma época muito antiga do Universo e não se encaixam facilmente em algumas explicações tradicionais. O novo estudo sugere que pelo menos parte deles poderia ser formada por buracos negros jovens envolvidos em enormes envelopes de gás. Observações anteriores do James Webb já haviam encontrado evidências independentes compatíveis com esse cenário: em junho de 2026, a NASA informou que o objeto GLIMPSE-17775 apresentava várias características espectrais que apoiavam a interpretação de um buraco negro em rápido crescimento dentro de uma espécie de casulo gasoso.

Isso muda a pergunta científica. Em vez de perguntar apenas “o que são esses pequenos pontos vermelhos?”, os pesquisadores podem começar a investigar se eles representam uma fase muito específica do nascimento e crescimento dos grandes buracos negros. A hipótese também é interessante porque os astrônomos há muito tentam entender como buracos negros supermassivos, alguns com milhões ou bilhões de vezes a massa do Sol, conseguiram crescer tanto quando o Universo ainda era extremamente jovem. Uma população de objetos semelhantes às estrelas de buraco negro poderia oferecer uma etapa intermediária para explicar esse crescimento acelerado.

O que essa descoberta revela sobre o Universo jovem?

MoM-BH*-1 não é apenas um objeto estranho; ele funciona como uma espécie de janela para uma época que não pode ser observada diretamente de outra maneira. Como a luz leva tempo para atravessar o espaço, observar objetos extremamente distantes significa olhar para versões antigas do Universo. Nesse caso, os astrônomos estão recebendo informações de uma época de apenas algumas centenas de milhões de anos depois do Big Bang, quando as primeiras estruturas cósmicas ainda estavam se formando.

O detalhe mais surpreendente é que o objeto parece estar quase completamente dominando a luz de sua galáxia hospedeira. Isso permite aos pesquisadores estudar uma fonte que, segundo o MIT, apresenta algo próximo de uma visão direta da emissão associada à própria “estrela de buraco negro”, sem que a luz de uma galáxia brilhante ao redor esconda completamente seus sinais. Essa característica ajuda a testar modelos que tentam reproduzir o espectro observado pelo James Webb e pode permitir comparações com outros pequenos pontos vermelhos.

Ainda assim, é importante separar descoberta de hipótese. Os pesquisadores consideram a interpretação de estrela de buraco negro a explicação mais provável para MoM-BH*-1, mas isso não significa que todos os detalhes sobre esses objetos já estejam resolvidos. A própria publicação científica descreve o fenômeno como um buraco negro envolto por gás e destaca que a observação oferece uma oportunidade para compreender melhor a formação de buracos negros no chamado “amanhecer cósmico”. Novas observações serão necessárias para descobrir quantos objetos semelhantes existem e se eles realmente representam uma etapa comum na evolução das galáxias.

A parte mais estranha dessa história talvez seja justamente a aparência enganosa. O James Webb encontrou algo que, visto de longe, parece uma estrela vermelha, mas cuja fonte de energia pode estar em um buraco negro gigantesco escondido sob uma camada de gás. Se a interpretação estiver correta, o Universo jovem pode ter produzido uma população inteira desses objetos, funcionando como “sementes” para os enormes buracos negros encontrados posteriormente no centro das galáxias.

Para quem observa o céu, a descoberta também mostra por que o Universo ainda guarda tantos enigmas. Um pequeno ponto em uma imagem pode representar uma estrutura com dimensões comparáveis ao Sistema Solar e processos físicos muito mais extremos do que aqueles encontrados nas estrelas comuns. E o mais curioso é que essa história começou justamente com algo que parecia simples: uma pequena mancha vermelha em uma fotografia do espaço profundo. O James Webb transformou essa mancha em uma possível nova peça para explicar como os primeiros buracos negros gigantes nasceram e cresceram.

Fontes:

  • Nature — “A gas-enshrouded and gas-reddened black hole at cosmic dawn” — estudo científico que apresenta o objeto MoM-BH-1*.
  • MIT News — “Astronomers discover a brand-new type of astrophysical object: A black hole star” — divulgação da descoberta pela equipe de pesquisadores.
  • NASA — “NASA Webb Finds Strongest Evidence Yet for ‘Black Hole Stars’” — informações sobre as evidências do James Webb para os chamados “little red dots”.
  • NASA — evidências de uma “Black Hole Star” — dados espectroscópicos do objeto GLIMPSE-17775.
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