Um mamífero semiaquático pré-histórico descoberto na China reúne características que parecem pertencer a animais diferentes. O Dongoconodon platycauda tinha patas semelhantes às do ornitorrinco, uma cauda achatada que provavelmente ajudava nos movimentos dentro d’água e um padrão de substituição dentária raro entre os mamíferos conhecidos.
A espécie viveu há aproximadamente 120 milhões de anos, durante o Cretáceo Inferior, em uma região que hoje corresponde à província de Liaoning, no nordeste da China. A descrição foi publicada em 28 de setembro de 2026 na revista Nature Communications, com base em um esqueleto quase completo preservado no Museu de História Natural da Mongólia Interior.
O espécime foi coletado em 2016, na localidade de Changzigou. A preservação do material permitiu aos pesquisadores analisar não apenas os ossos das patas e da cauda, mas também estruturas da mandíbula, do ouvido médio e dos dentes. Esse conjunto oferece pistas sobre o modo de vida do animal e sobre mudanças importantes na evolução dos mamíferos.
Um mamífero com patas semelhantes às do ornitorrinco
As mãos e os pés de Dongoconodon platycauda apresentavam ossos achatados e estruturas que poderiam sustentar membranas entre os dedos. Essa configuração é comparável, em termos funcionais, às patas do ornitorrinco, embora o fóssil represente uma linhagem muito mais antiga e não seja um ancestral direto do animal australiano.
A anatomia sugere uma adaptação à vida em ambientes aquáticos ou às margens de rios e lagos. De acordo com a interpretação dos pesquisadores, as patas dianteiras talvez contribuíssem para a propulsão, enquanto a cauda teria papel importante no controle dos movimentos durante a natação. O animal provavelmente ocupava um ambiente ribeirinho do Cretáceo, em uma paisagem muito diferente da atual.
A cauda também chama atenção. As vértebras próximas à sua base eram achatadas verticalmente, uma característica associada à estabilização e à direção dentro da água. Os autores comparam essa função à da cauda do ratão-do-banhado, roedor semiaquático que vive atualmente em diferentes regiões do mundo. A comparação se refere ao formato e ao possível uso hidrodinâmico, não a uma relação evolutiva entre os animais.
A dentição que surpreendeu os pesquisadores
O aspecto mais incomum do fóssil está na boca. A maioria dos mamíferos atuais possui duas gerações de dentes: os dentes de leite e os permanentes. No novo fóssil, porém, os pesquisadores identificaram dentes em diferentes estágios de desenvolvimento e sinais compatíveis com uma terceira geração em algumas posições.
Esse processo é conhecido como polifiodontia, ou substituição contínua ou múltipla dos dentes. A característica é mais frequentemente associada a répteis e a outros grupos de vertebrados. O achado indica que a evolução da dentição dos mamíferos antigos foi mais diversificada do que uma divisão simples entre animais que trocam os dentes poucas vezes e espécies que os substituem continuamente.
A presença de várias gerações dentárias pode ter ajudado o animal a repor dentes desgastados ao longo da vida. No entanto, o estudo não estabelece sozinho como esse mecanismo funcionava em todos os indivíduos ou qual era sua frequência exata. O que o fóssil mostra é que algumas linhagens antigas de mamíferos desenvolveram combinações anatômicas que praticamente desapareceram entre seus descendentes.
O que o fóssil revela sobre a evolução dos mamíferos
Além da dentição, o espécime preserva estruturas relacionadas ao ouvido médio e à mandíbula. Essas partes são importantes para compreender um dos processos marcantes da evolução dos mamíferos: a separação gradual dos ossículos auditivos em relação aos ossos da mandíbula.
Em mamíferos modernos, os pequenos ossículos do ouvido médio participam da transmissão dos sons até o ouvido interno. Em formas ancestrais, algumas estruturas que mais tarde assumiriam essa função estavam ligadas à mandíbula. A preservação encontrada em Dongoconodon platycauda ajuda a documentar etapas dessa transformação, ainda que o animal não represente necessariamente uma etapa direta e única da origem dos mamíferos modernos.
O conjunto de características também sugere que se tratava de um animal carnívoro. Suas patas, cauda e dentição apontam para um predador adaptado a explorar ambientes próximos da água, embora o fóssil não permita reconstruir todos os detalhes de seu comportamento.
Para os pesquisadores, a descoberta reforça que a evolução dos mamíferos não seguiu uma trajetória uniforme. Características consideradas típicas do grupo podem ter surgido, desaparecido ou se combinado de formas inesperadas em diferentes linhagens. Nesse sentido, o animal encontrado em Liaoning parece uma mistura improvável de ornitorrinco, ratão-do-banhado e predador do Cretáceo — mas é justamente essa combinação que torna o fóssil tão relevante para a paleontologia.
Informações institucionais sobre a pesquisa também foram divulgadas pela Universidade de Nanjing.
