Um inseto que viveu há aproximadamente 99 milhões de anos tinha uma característica anatômica tão incomum que seus pesquisadores a compararam a uma mangueira flexível. Preservado em âmbar encontrado em Myanmar, o animal possuía uma estrutura bucal com comprimento próximo de duas vezes o tamanho do próprio corpo.
A nova espécie foi batizada de Cretodorus noonoo. O nome faz referência a Noo-Noo, o aspirador de pó da série infantil “Teletubbies”, em uma alusão ao formato e à função do órgão usado pelo inseto para obter alimento. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade de Tel Aviv e da Academia Chinesa de Ciências.
O estudo foi divulgado em 4 de outubro de 2026, em comunicado da Universidade de Tel Aviv distribuído pela EurekAlert. A pesquisa também foi publicada na revista científica Insects, no artigo intitulado “Flexible Drinking Straws of the Cretaceous”.
Uma estrutura longa, flexível e corrugada
De acordo com os pesquisadores, a peça bucal do Cretodorus noonoo apresentava dobras semelhantes às de uma mangueira corrugada. Esse desenho permitia que a estrutura se curvasse sem perder a capacidade de conduzir líquidos, uma combinação pouco comum entre os insetos conhecidos atualmente.
O órgão era longo o suficiente para alcançar espaços profundos e estreitos. A hipótese apresentada no estudo é que o inseto o utilizasse para retirar fluidos nutritivos escondidos em rachaduras na casca de árvores. Em vez de depender apenas de uma abertura próxima à superfície, o animal poderia explorar locais protegidos no tronco.
Essa possível estratégia alimentar diferencia a espécie de muitos representantes modernos aparentados. Segundo a pesquisa, não há um equivalente direto conhecido entre os insetos atuais para esse mecanismo, o que torna o fóssil relevante para compreender a diversidade de adaptações que existiam durante o Cretáceo.
O que o âmbar preservou
Os pesquisadores analisaram 13 fósseis preservados em âmbar de Kachin, no norte de Myanmar. A região é conhecida por abrigar peças que conservaram organismos do passado distante, permitindo observar detalhes do corpo que dificilmente permaneceriam identificáveis em outros tipos de registro fossilífero.
Neste caso, a preservação foi especialmente importante porque a descoberta depende da forma da estrutura bucal e da relação entre suas dimensões e o corpo do inseto. O material permitiu aos cientistas examinar não apenas o tamanho excepcional do órgão, mas também suas dobras e características anatômicas.
A análise de vários exemplares ajudou a sustentar a identificação de uma nova espécie. O conjunto também forneceu dados para comparar o animal com outros insetos extintos de grupos relacionados, ampliando a compreensão sobre a anatomia e a evolução dessas linhagens.
Fóssil também muda classificação de grupos extintos
Além de descrever o Cretodorus noonoo, o trabalho propõe alterações na classificação de grupos extintos de cigarrinhas e de outros insetos aparentados. As mudanças foram baseadas em características compartilhadas do corpo e das peças bucais observadas nos fósseis.
Esse tipo de revisão é importante porque a classificação dos organismos fósseis depende da comparação entre estruturas preservadas. Uma característica que antes parecia isolada pode revelar uma relação evolutiva quando analisada junto a outros exemplares. No caso da nova espécie, a estrutura semelhante a uma mangueira contribui para reposicionar o animal dentro da história desses insetos.
O artigo publicado na Insects reúne a descrição anatômica e a proposta de reorganização desses grupos. A repercussão independente da descoberta também foi publicada pelo Phys.org, que destacou a combinação entre o tamanho do órgão e a forma flexível preservada no âmbar.
Uma adaptação sem equivalente moderno conhecido
O caso mostra como fósseis podem revelar soluções evolutivas que desapareceram ao longo do tempo. O inseto do Cretáceo não era apenas um animal pequeno preservado em resina: ele apresentava uma maneira especializada de alcançar alimento em um ambiente que provavelmente oferecia recursos escondidos nas árvores.
A “mangueira” do Cretodorus noonoo não deve ser entendida como uma estrutura rígida. Sua flexibilidade e as dobras corrugadas eram justamente os elementos que permitiam o funcionamento do órgão. A combinação entre alcance, mobilidade e condução de fluidos está entre os aspectos mais marcantes da descoberta.
Preservados em âmbar de Kachin, os 13 fósseis registram uma pequena parte da diversidade de insetos que existia há cerca de 99 milhões de anos. Ao mesmo tempo, ajudam a mostrar que estratégias alimentares altamente especializadas já estavam presentes muito antes do surgimento dos ecossistemas modernos.
