Duas novas espécies de aranhas-marinhas foram descritas por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá. Os animais foram encontrados no Mar de Salish, uma área costeira localizada entre a Colúmbia Britânica e o estado de Washington, nos Estados Unidos.
Apesar do nome popular, as aranhas-marinhas não são aranhas terrestres. Elas pertencem ao grupo dos picnogônidos, artrópodes exclusivamente marinhos que apresentam características bastante incomuns, como pernas longas em relação ao corpo, uma probóscide usada para sugar fluidos de presas e a capacidade de respirar pela pele.
As espécies receberam os nomes científicos Callipallene pilosuspedes e Tanystylum kiixin. A descoberta foi divulgada em 23 de setembro de 2026 pela University of British Columbia e representa a primeira descrição de novas aranhas-marinhas no Mar de Salish em quase um século.
Uma espécie com olhos avermelhados e pernas cheias de espinhos
A Callipallene pilosuspedes é descrita como uma espécie de corpo translúcido, olhos avermelhados, espinhos longos e curvados nas pernas e uma estrutura bucal triangular formada por três lábios. O conjunto dá ao animal uma aparência especialmente estranha, mesmo dentro de um grupo conhecido por sua anatomia incomum.
Outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: a espécie parece usar apêndices especializados, normalmente associados ao transporte de ovos, para limpar as próprias pernas. Esse comportamento foi observado durante a análise microscópica do animal, que pode remover detritos acumulados em seus membros.
A identificação foi baseada em apenas um exemplar encontrado durante a pesquisa. Por isso, os dados sobre a distribuição e a variação da espécie ainda são limitados. O registro, no entanto, foi suficiente para diferenciá-la de outras aranhas-marinhas conhecidas na região.
Um pequeno ecossistema preso ao corpo do animal
A segunda espécie, Tanystylum kiixin, recebeu um nome relacionado a um antigo assentamento indígena localizado próximo à área onde os exemplares foram coletados. Ela apresenta apêndices menos flexíveis, uma característica que parece dificultar a limpeza do próprio corpo.
Como resultado, os animais examinados frequentemente carregavam detritos e pequenos parasitas protistas aderidos à superfície. A situação foi descrita pelos cientistas como um “ecossistema dentro de outro ecossistema”, já que diferentes organismos podem encontrar abrigo ou condições de vida no corpo da aranha-marinha.
O achado mostra que a aparência de um animal pode revelar apenas parte de sua história ecológica. Além de viver em um ambiente marinho complexo, a Tanystylum kiixin também pode servir de suporte para outros seres microscópicos, criando uma relação ainda pouco conhecida entre a espécie e os organismos que se fixam nela.
Coletas em diferentes pontos da costa canadense
Os espécimes foram coletados entre setembro de 2023 e agosto de 2024, durante mergulhos realizados em profundidades de até 18 metros. As áreas investigadas ficavam próximas à Ilha Quadra, Vancouver, Bamfield e Victoria, localidades situadas na costa da Colúmbia Britânica.
Para reconhecer as espécies, os pesquisadores combinaram observações morfológicas detalhadas, microscopia e análise genética. O trabalho também produziu dados de DNA para espécies que ainda não haviam sido sequenciadas e elaborou uma chave de identificação para as aranhas-marinhas do Mar de Salish.
O estudo científico foi publicado em 2026 na revista Organisms Diversity & Evolution, com o título “Sea spiders of the Salish Sea: Comparative morphology and molecular phylogenetic analysis of seven coastal species”. O artigo está disponível por meio do DOI 10.1007/s13127-026-00707-3.
Por que descobrir animais tão pequenos é importante?
As novas espécies ajudam a ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade do Mar de Salish, uma região costeira compartilhada pelo Canadá e pelos Estados Unidos. Ainda existem lacunas sobre a diversidade, a distribuição e os hábitos das aranhas-marinhas que vivem nesse ambiente.
Para os pesquisadores, identificar quais espécies estão presentes é uma etapa necessária para acompanhar possíveis impactos da mudança climática e da atividade humana sobre os invertebrados marinhos. A descoberta, por si só, não demonstra efeitos diretos dessas alterações, mas cria uma nova linha de base para comparações e pesquisas futuras.
Também chama atenção o fato de que a descrição ocorre depois de um intervalo de quase cem anos sem novas espécies de aranhas-marinhas registradas no Mar de Salish. Em um grupo pouco estudado e visualmente incomum, cada exemplar pode fornecer pistas sobre a evolução, as relações ecológicas e a história natural das águas costeiras da região.
