Uma plataforma funerária com os restos mortais de 38 indivíduos foi descoberta no complexo arqueológico de Chan Chan, no litoral norte do Peru. O achado ocorreu no conjunto amuralhado Utzh An, também conhecido como Gran Chimú, durante trabalhos de pesquisa e conservação coordenados pelo Ministério da Cultura do Peru por meio do Projeto Especial Complexo Arqueológico Chan Chan.
Associada à cultura Chimú, a estrutura permaneceu escondida por mais de seis séculos e preservou elementos que podem ajudar a compreender os rituais funerários, a organização social e as relações culturais da antiga sociedade que teve Chan Chan como capital. Entre os materiais encontrados estão objetos de metal, armas, emblemas, peças de concha, tecidos e diferentes tipos de cerâmica.
As informações foram divulgadas entre 8 e 10 de setembro de 2026 pelo Ministério da Cultura peruano e pela Agência Andina. A descoberta ganhou atenção por reunir uma quantidade expressiva de sepultamentos em uma estrutura funerária preservada e por apresentar detalhes que fogem de padrões conhecidos para a cultura Chimú.
Tumba preservada por mais de 600 anos
A plataforma funerária possui uma câmara central e duas câmaras laterais. Em uma delas, os pesquisadores localizaram 20 indivíduos. Outros 18 foram encontrados na mesma plataforma, totalizando 38 pessoas consideradas de alto status. A disposição dos sepultamentos e a presença de objetos associados indicam que o espaço tinha importância especial dentro do conjunto arquitetônico.
Chan Chan fica nas proximidades da cidade de Trujillo, na região de La Libertad, e é formada principalmente por construções de adobe. O complexo foi a capital do antigo reino Chimú e é reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco desde 1986, conforme informações do Ministério da Cultura do Peru.
A conservação da estrutura oferece aos arqueólogos a possibilidade de analisar, em conjunto, a arquitetura da tumba, os restos humanos e os artefatos associados. Esse tipo de evidência pode revelar diferenças de posição social, práticas de homenagem aos mortos e conexões entre grupos que viveram na costa peruana antes da chegada dos europeus.
Corpo foi enterrado em posição incomum
Um dos aspectos mais curiosos da descoberta está na forma como um dos indivíduos foi colocado no interior da tumba. Enquanto os sepultamentos Chimú geralmente envolviam pessoas em posição flexionada ou sentada, esse corpo foi encontrado completamente estendido no fundo de uma das câmaras.
A diferença pode estar relacionada ao status do indivíduo, a um ritual específico ou à relação estabelecida entre aquela pessoa e os demais mortos. No entanto, a posição do corpo, isoladamente, não permite afirmar que tenha ocorrido sacrifício humano. Os pesquisadores ainda precisam avaliar o conjunto das evidências antes de estabelecer uma interpretação definitiva.
O achado também chama atenção porque a disposição dos corpos pode registrar escolhas funerárias distintas dentro de uma mesma estrutura. A comparação entre os sepultamentos, os objetos depositados e a arquitetura das câmaras poderá ajudar a identificar se havia hierarquias, funções ou tradições diferentes entre os indivíduos enterrados.
Achado pode revelar contatos entre diferentes culturas
Além dos sepultamentos, a equipe identificou materiais que podem indicar contato ou intercâmbio com outras regiões. Entre eles estão cerâmicas vermelhas, consideradas distintas da produção Chimú mais conhecida pelo uso predominante de peças escuras, além de um objeto antropomorfo com características diferentes das encontradas habitualmente nesse contexto.
Também foi localizada uma caixa de madeira contendo tecidos descritos como especialmente finos. A qualidade e a variedade desses materiais podem contribuir para o estudo das redes de circulação de objetos, das relações entre comunidades e do modo como grupos de maior prestígio utilizavam bens raros ou diferenciados em cerimônias funerárias.
Em outra reportagem, a Agência Andina destacou que os detalhes encontrados ampliam o potencial da descoberta para investigar aspectos inéditos da cultura Chimú. Ainda não há uma conclusão final sobre a identidade dos indivíduos ou sobre o significado exato de cada objeto, mas a plataforma fornece um conjunto arqueológico raro e preservado.
A descoberta reforça a importância das pesquisas de conservação em Chan Chan, uma das principais cidades pré-hispânicas construídas em adobe no Peru. Ao evitar interpretações precipitadas e analisar cada evidência em seu contexto, os especialistas poderão esclarecer como os Chimú enterravam seus mortos, como distinguiam pessoas de alto status e quais contatos mantinham com outras regiões.
